Dor de dentes

Começou por lhe ser algo intermitente e pouco incomodativa. Com o decorrer dos dias a dor tornou-se mais constante e foi aumentando lentamente de intensidade, mas era-lhe ainda suportável e aprendeu a conviver com ela como se fosse já parte de si.

Como tudo aquilo que nos é suportável ou não nos incomoda muito, vamos adiando a sua resolução até que seja absolutamente necessário ou em alguns casos tarde de mais.
E lá chegou o dia! O dia em que a dor se tornou demasiado forte, excessivamente insuportável. A dor intensificava com o frio, com o calor, com o toque, e era na altura uma dor intensa, constante e impossível de passar despercebida.

Uma vigorosa dor de dentes à semelhança de uma possante enxaqueca, e eu sei bem o que são ambas, gera um desconforto de tal ordem que nos impossibilita de quase tudo. Da pouca experiencia tida até ao momento, das piores dores que se pode ter.

Os analgésicos com o seu pouco efeito, sempre lhe iam dando algum alivio, mas o sofrimento era tanto, que o estado de espirito era só um: já só pensava na dor e numa maneira de a fazer parar. Já não conseguia comer, pensar em condições ou mesmo dormir. Com o cansaço e desgaste acumulado da luta contra a dor, não tinha força nem vontade para mais nada. Tudo o que fazia era com grande esforço.
Chegou mesmo ao ponto de ter a tentação de arrancar o próprio dente para acabar de vez com a angustia. Provavelmente só iria causar mais estragos e provocar ainda mais dor ao próprio, mas naquele momento o discernimento era nulo. Só pensava em por fim aquela agonia.

A sensação de alivio quando a dor desaparecia ou por momentos era atenuada é indiscritível.

Depois de semanas a antibióticos e analgésicos, isto porque o problema já afectava a raiz do dente, estava finalmente na sala de espera do dentista para tratar em definitivo daquele seu problema.

Enquanto esperava leu uma noticia sobre um suicídio e começou a reflectir sobre o assunto. Numa forma simplista imaginava, e só o podia imaginar, se não seria tipo de agonia que que passou equivalente ao que atormenta uma pessoa que comete suicídio.

Uma agonia, uma dor, um desespero que se estende a tudo o que fazem, pensam ou sentem. Um desconcerto tal que a única solução que conseguem ver para o perturbador dilema é acabar com a sua própria vida.
O suicídio em si, reflectia ele enquanto se apercebia da devastação emocional provocada nos que era mais próximos da pessoa que morreu, pode talvez ser considerado um acto egoísta e egocêntrico, mas a verdade é que no momento não há discernimento para pensar em mais nada que não seja por fim à exasperação em que se vive.
Não há capacidade para ver além dos tormentos, para se aperceber do bom que a rodeia ou mesmo para ter nocção que a “solução” que vislumbram não é o fim do problema, mas mesmo o fim da história.

Tal como numa forte dor de dentes, não nos conseguimos abstrair da dor e de todos os seus efeitos secundários, uma pessoa em depressão profunda muitas vezes não se consegue abstrair de toda a negatividade e pessimismo que isso traz. Muitas vezes fruto do cansaço, do se debater sempre com os mesmos problemas sem arranjar forma de os ultrapassar. Do pensar e repensar no que fez ou deixou de fazer para chegar aquele ponto ou mesmo nas infinitas possibilidades, todas elas negativas, que cria mentalmente para o seu futuro. E isso consome a alma de uma pessoa. A culpa e o auto-flagelo por tudo de menos bom que acontece.

Mais do que um analgésico ou palmadinhas de apoio, estas pessoas precisam de tratar o mal pela raiz. Ir a essência do problema para recuperarem a alegria de estar vivos. Para não se considerarem um fardo, mas sim uma bênção no meio dos outros.

Esse processo é demorado, leva tempo e é preciso paciência. Paciência num mundo muitas vezes impaciente e stressado. Paciência num mundo que cada vez mais vive do instantâneo e do imediato sem parar para pensar e reflectir, nem que por uns minutos, no amanhã.

Todo este raciocínio, foi interrompido, quando ouviu o eco do seu nome. Estava a ser chamado para entrar no consultório.
Com o tratamento concluído, e os conselhos do dentista, apercebeu-se do quão importante é a prevenção e o cuidado diário que se deve ter para evitar novos episódios semelhantes.

Apercebeu-se também que tal como os dentes devem ser cuidados para evitar dores e que apodreçam por dentro, as pessoas devem-se cuidar e ser cuidadas, ser amadas e estimadas para precaver que se sintam mal consigo mesmas e com o mundo.
Cuidar, apoiar, estar atentos aos que nos rodeiam, em especial quando se vive num ritmo frenético, é difícil, mas é essencial.
Todos precisamos uns dos outros porque sozinhos, pouco ou nada somos, pensou.

Um dente estragado, pode ser reparado, até substituído. Uma pessoa, uma vida não. 
Foi com esta certeza simples mas abismal que saiu do consultório e ao distrair-se com a imensidão de possibilidades de afazeres que agora tinha sem a incomodativa dor de dentes, voltou para a sua habitual rotina.

 

JPVG

 

 

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