Choro!

Sinto-me bem, sinto-me seguro,
Neste escuro aconchego, ninho no qual me formo.
Ainda não te conheço, mas já sei de cor a tua voz,
As tuas palpitações, os teus anseios, o teu coração,
Cujo o ruído me embala, por vezes meigo, outras veloz,
Que dia após dia decoro e escuto com imensa atenção

Luz forte e vozes que desconheço, sinto anseio a crescer!
Choro por tudo estranho me ser, e onde estou mais não o saber,
Limpam-me e examinam-me para aos pais apresentar,
Tanta felicidade, expectativa e alarido que fico emotivo,
Choro para, na minha inocência, o mundo cumprimentar,
Para dizer que estou aqui, que estou bem, que estou vivo!

Acalmo quando sinto o teu cheiro e ouço a tua voz,
Quando no teu colo me encosto ao teu peito!
Que me aconchega, me alimenta, me da mimo e vitalidade

Choro porque não sei outra forma comunicar,
Porque olham para mim, sem me compreender
Depressa chegará o dia em que não me vou calar,
Choro porque não quero dormir, quero atenção,
Medo que me assombra que se esqueçam de mim,
Dorme! Tempo terás para brincar até a exaustão,

Há de chegar o dia em que o silêncio me será precioso
Até lá choro quando sozinho, ou se noto a escuridão,
Sossego na luz, fico em paz no barulho da multidão,
Choro porque sim, porque não, até me vencer o cansaço
Choro porque nada mais sei ou posso fazer,
Mas gostava de “amo-vos” (papá e mamã), poder dizer!

Choro! Acalmo e sorrio sorrateiramente,
Aprecio, observo e escuto tudo atentamente
Tempo não falta para aprender tudo calmamente.

Sinto-me bem, sinto me seguro
Mas porque existo, choro…

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